Muito pouco para quase nada

2008 Julho 6
by Zailda Coirano

Me conta Karin Osmeus que teve educação primorosa, e se fala assim tão empolado não é culpa sua. Educada em colégio de freiras, em casa convivia com a tia que era professora de português. Nada de erros de concordância ou de gírias, era o mínimo que a tia lhe cobrava por um prato de comida e um lugar para dormir.

Curso de letras (orientada pela tia), perambulara com seu diploma debaixo do braço pelas escolas, e ao final de alguns meses, vendo minguar suas parcas economias, resolvera aceitar qualquer coisa. Tudo para não deixar a cidade grande e voltar com o rabinho no meio das pernas pra sua cidade natal conforme profetizara a tia antes de ela partir com a mala repleta de esperanças e de um lado o diploma.

Seu emprego atual num call center não era o que sonhara mas dava pra viver e pagar as contas. Complicado era comunicar-se com os clientes.

- Operadora Karin Osmeus. Bom dia, senhora. Qual é a sua graça?

- Não tô com graça não, moça. Tô puta da vida porque essa porcaria que me venderam não está funcionando!

- Ajudar-lhe-ei com sua solicitação se fizer-me o favor de dizer-me sua graça.

- Já disse que não tô com graça!

- Pois bem, senhora. Em que posso ajudar-lhe? Qual a natureza de sua solicitação?

- Pô, que língua você fala?

- Português, senhora. Conceder-me-ia dois minutos de seu precioso tempo para preencher um formulário para que eu possa proceder à verificação necessária para a configuração de seu aparelho de telefonia celular?

- ……

Me conta ela que a senhora desligou.

(zailda coirano)

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