Muito pouco para quase nada
Me conta Karin Osmeus que teve educação primorosa, e se fala assim tão empolado não é culpa sua. Educada em colégio de freiras, em casa convivia com a tia que era professora de português. Nada de erros de concordância ou de gírias, era o mínimo que a tia lhe cobrava por um prato de comida e um lugar para dormir.
Curso de letras (orientada pela tia), perambulara com seu diploma debaixo do braço pelas escolas, e ao final de alguns meses, vendo minguar suas parcas economias, resolvera aceitar qualquer coisa. Tudo para não deixar a cidade grande e voltar com o rabinho no meio das pernas pra sua cidade natal conforme profetizara a tia antes de ela partir com a mala repleta de esperanças e de um lado o diploma.
Seu emprego atual num call center não era o que sonhara mas dava pra viver e pagar as contas. Complicado era comunicar-se com os clientes.
- Operadora Karin Osmeus. Bom dia, senhora. Qual é a sua graça?
- Não tô com graça não, moça. Tô puta da vida porque essa porcaria que me venderam não está funcionando!
- Ajudar-lhe-ei com sua solicitação se fizer-me o favor de dizer-me sua graça.
- Já disse que não tô com graça!
- Pois bem, senhora. Em que posso ajudar-lhe? Qual a natureza de sua solicitação?
- Pô, que língua você fala?
- Português, senhora. Conceder-me-ia dois minutos de seu precioso tempo para preencher um formulário para que eu possa proceder à verificação necessária para a configuração de seu aparelho de telefonia celular?
- ……
Me conta ela que a senhora desligou.
(zailda coirano)


